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Isabela


isabelaMe chamo Isabela, tenho 31 anos, sou casada, moro em Manaus e sou profissional de relações públicas. Meu casamento aconteceu no dia 9 de setembro de 2011. Lembro que, quando meu pai me pegou pelo braço, para me levar até o altar, eu só pensava: “não posso ficar ofegante, não posso ficar ofegante”. Era um caminho curtinho, talvez 50 metros. Mas, para mim, já era muito cansativo.

Passei a lua de mel em Salvador e lá ficou claro que tinha realmente algo errado comigo. Era um sacrifício andar na praia… Subir as ladeiras do Pelourinho, então, nem pensar! Tudo era tão difícil!

Voltei para Manaus e comecei uma peregrinação pelos consultórios médicos. Só aí me dei conta de que já estava me sentindo mal há pelo menos um ano. E, durante esse tempo todo, os médicos que procurava falavam que meus problemas eram os mais diversos possíveis: sinusite, rinite, alergias. Nunca cogitaram a HAP. Nessa época, meus sintomas eram tontura e muita falta de ar. Não precisava nem fazer exercícios pesados: atividades simples, como subir três lances de escada, escovar o cabelo, lavar louça, me davam uma falta de ar tão grande que espremia meu peito. A sensação era horrível.

Finalmente um pneumologista indicou que eu fizesse uma tomografia do pulmão. E aí, batata: quando abri o laudo, estava escrito – Hipertensão Arterial Pulmonar. Como nunca tinha ouvido falar da doença, a primeira coisa que fiz foi procurar no Google e o resultado foi desastroso. As notícias falavam em uma doença mortal, com sobrevida de dois anos. Mostravam também pacientes acamados, muito debilitados, fazendo uso 24 horas por dia de oxigênio e com poucas opções de remédios para controlar a HAP. Nunca, na minha vida inteira, passei por uma situação de tanto pavor, como no momento em que li aquelas notícias. Achei que fosse morrer em dois anos.

Com esse primeiro diagnostico, fiz vários outros exames para confirmar e indicar o grau da doença. Um deles foi o cateterismo, que, me diziam os médicos, seria simples e rápido. Não foi, e como consequência, fui parar na UTI. Que susto!

Depois que me recuperei, iniciei o tratamento com os remédios específicos para doença e  minha vida foi voltando ao normal. Aos poucos, fui conhecendo meus limites.  Hoje sei bem o que posso fazer tranquilamente, o que me cansa um pouco, o que cansa um pouco mais etc.

Algumas coisas são impossíveis: não posso subir ladeiras, escadas e fazer longas caminhadas. Não dá pra arrumar a casa (até dá, mas é certo que sentirei tontura ou desmaiarei… rsrs). Não dá pra dançar mais de uma música seguida. Não posso mergulhar nem fazer trilhas. Não posso me exceder nem na bebida e nem na comida.

Há também o que eu nunca fiz e sinto remorso, porque sei que a HAP nunca vai me deixar fazer: uma tatuagem, correr uma maratona, fazer um curso de dança, subir o Monte Roraima. Atividades tão simples e banais, que sempre me pergunto: por que não fiz enquanto podia?

Na verdade, em relação a todas as privações, eu acabo tirando de letra. Mas existe uma coisa que a HAP me tirou e eu não consegui aceitar ainda: o fato de não poder ter filhos. É tão cruel, tão injusto com uma mulher… É muito triste saber que nunca vou passar pela experiência de ser mãe, de gerar uma criança, de discutir com meu marido se o bebê se parece mais com ele ou comigo.

Esta é minha principal batalha: tentar aceitar, entender que Deus deve ter uma boa razão para que eu tenha essa condição. Por outro lado, essa situação acabou abrindo meu coração para outras possibilidades, como amar minha enteada como se fosse minha filha e a adoção.

Já faz dois anos que descobri a HAP. Não morri (claro) e nunca passei mais de dez dias internada. Nunca precisei usar oxigênio. Minha produtividade no trabalho não caiu e não parei de estudar. Continuo fazendo planos audaciosos e todos exigem tempo: deixar o cabelo crescer, aprender francês, viajar para outros países, encarar 30 anos de financiamento de uma casa, ajudar a Clara a escolher o vestido de noiva (o que deve demorar, pelo menos, uns 15 anos).

Enfim, a HAP não parou minha vida e eu também não parei minha vida por causa da HAP. E ela me fez perceber o que realmente importa: os amigos, a família, o AMOR.